Prólogo — O Último Volume Proibido
No subsolo do Santuário Arcano, sob dez mil toneladas de pedra e segredo, o último dos volumes proibidos repousava aberto — e suas páginas de velino respiravam. Subiam e desciam sob o brilho suspenso das lanternas, como se o livro guardasse um lento coração animal; como se apenas tivesse esperado por um leitor paciente o bastante para merecê-lo.
O Arquimagister Alex — primeiro de seu nome, e não o último em ambição — deslizou um dedo enluvado por uma linha de texto que não fora gravada em tinta. A escrita era coisa mais escura, há muito ressecada, e recebia mal a luz, do jeito que uma ferida recebe o sal.
Seu lábio tremeu. "Poesia", murmurou. "Ou aviso. Tendem a rimar."
Ao seu redor, os Grandes Arquivos do Santuário estendiam-se como a caixa torácica de um titã há muito morto — corredor após corredor de verdades proibidas, seladas sob juramentos, sob dentes, sob o lento esquecimento da burocracia. A maioria dos magos temia aquele lugar. Alex apenas o estudava. Enquanto os outros se afiavam uns contra os outros por poder dentro de limites sancionados, ele fora atrás de algo mais antigo: o fundamento da magia antes de ser acorrentada pela compreensão dos mortais.
As grandes potências elementares — Terra, Fogo, Água e Ar — eram apenas a superfície. O que o interessava agora eram as fontes mais profundas. Poder Estelar. Feitiçaria de Sangue. O Ânimus — a força vital em estado bruto, e sem palavra.
O que existe além dos elementos não é poder — é o preço. O que aguarda além do preço é a própria divindade.
Magia que exigia mais do que esforço. Magia que exigia identidade.
Atrás dele, passos. Firmes, sem pressa.
"Ainda caçando o tutano dos insanos?", disse uma voz de seda envolta em aço.
Amanda. Antiga mentora. Ainda perigosa. Suas vestes farfalharam ao adentrar o recinto, uma constelação de sigilos bordados cintilando sob a luz tênue das lâmpadas taúmicas. Carregava-se como quem nada tinha mais a provar — e, por isso mesmo, inspirava temor.
Alex não se virou. "Eu apenas busco o que o mundo esqueceu que um dia sangrou para alcançar."
O olhar dela pousou sobre o livro. Os lábios se apertaram. "Esse tomo foi selado por um motivo."
Ele o fechou, com cuidado. "Sim. E motivos, como bem sabe, envelhecem."
Ela se aproximou, a voz mais baixa. "Há rumores vindos das cidades da fronteira. Algo rasgando o Véu. Algo antigo. Bestial. Insano. Estrelas caindo do céu — e não em figura de linguagem. Verdadeiros impactos estelares. Cidades inteiras sob uma quarentena rubra."
Alex cruzou as mãos atrás das costas. "Então é como eu suspeitava. O eclipse já está corroendo a malha. As marés de sangue estão subindo."
Amanda soltou o ar, tensa. "E, contudo, você parece satisfeito."
"Não", respondeu ele. "Preparado."
Ela o fitou longamente, como se procurasse, dentro daquela câmara, o aprendiz que um dia ensinara. Depois, em voz quase sussurrada: "Jamais deveríamos tocar as raízes da magia, Alex. Seus alicerces penetram na alma. Se as torcermos demais—"
Ele a silenciou com um olhar. "Então que a alma se torça."
Silêncio.
A voz de Amanda saiu pequena quando voltou a falar. "Todo grande mago que buscou a apoteose terminou não como deus, mas como um aleijado."
Ele sorriu. "Então talvez eu precise aprender a sangrar melhor do que eles sangraram."
Naquela noite, as estrelas gritaram.
Ele não dormiu; desabou em transe — do tipo que deixa marcas em brasa na alma. Naquele lugar além do sonho, encontrava-se num vazio iluminado apenas pela lenta agonia das constelações em decadência.
Algo se moveu na escuridão.
A princípio, parecia um homem. Depois, uma besta. Em seguida, uma serpente forjada de osso dourado. Erguia-se acima dele, asas abertas — asas que apagavam sóis e sussurravam em línguas anteriores à própria forma.
A voz da criatura não veio como som, mas como impacto: uma gravidade conceitual que arrastava seus pensamentos por limiares partidos. Arranhas a porta, pequeno soberano. Cobiças domínio sobre verdades que jamais deveriam caber em mentes mundanas.
Alex permaneceu firme, embora seus ossos gemessem sob o peso.
Este caminho é só de ida. O sangue inundará rios outrora puros. O céu tornar-se-á uma ferida que chora estrelas. A loucura não baterá à porta — inundará.
"E ainda assim", sussurrou Alex, "eu atravessarei."
As asas da criatura se abriram. Mil sóis moribundos pareceram apagar-se atrás dela.
Então o teu mundo já é cinza. Vós só ainda não percebestes.
Quando despertou, os lençóis estavam encharcados. As mãos tremiam — não de medo, mas de antecipação.
E no canto de sua câmara, o espelho estava rachado.
Seu reflexo sorria.