StarborneEclipse of the New Gods · Vol. I
ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
STARBORNE — Volume Um: Eclipse dos Novos Deuses

Capítulo Dois — O Silêncio do Gelo

«Eisengrave»

Longe ao norte, onde o fôlego se tornava frágil e o vento cortava como lâmina de aço, ficava a aldeia de Eisengrave.

A fumaça subia espessa das chaminés carregadas de neve. As casas curvavam-se rente à terra, como se quisessem esconder-se do céu. Nada se movia depressa ali. O frio ensinava paciência, ou matava — não havia terceira lição.

As pessoas não falavam a menos que precisassem. As palavras eram gastas como lenha, queimadas só quando a sobrevivência permitia. Guardava-se o calor da boca como se guarda o das mãos.

Halvard tinha trinta e três invernos. Falava ainda menos que os outros.

Vivia perto da orla da aldeia, onde as árvores rareavam e a neve permanecia por mais tempo. Quando passava, as portas fechavam-se um instante mais cedo. Os fogos ardiam um pouco mais baixo. Não por desprezo — por respeito ao que ele carregava.

Tinha o porte de um homem talhado em pedra: ombros largos, rosto curtido, silencioso. A pele era um mapa de cicatrizes, e cada uma tinha uma data que só ele sabia contar. Os olhos não eram suaves. O frio nunca o tocou como tocava os outros, como se já lhe tivesse cobrado tudo o que havia para cobrar e desistido do resto.

Quando a aldeia precisava de um nome para a força, diziam o dele. Quando precisava de um escudo, buscavam a sua sombra.

Houve um tempo, não muito distante, em que o norte não tinha nome para um lugar seguro.


Uma besta de pelo prateado assombrava as florestas além de Eisengrave havia quase duas décadas — sem piedade, sem descanso.

Caçava homens por esporte, muito depois de a fome a ter esquecido. Começou pelos animais. Depois os caçadores. Depois os viajantes. E, num inverno, levou uma criança da própria soleira, sem deixar mais que uma fileira de pegadas que se fechava sobre si mesma na neve.

Os anciãos chamavam-na de Uivo Branco — pelo modo como o seu brado ecoava pelos pinhais muito depois de o massacre ter cessado. Falavam dela apenas em sussurros, e nunca depois de escurecer; porque dizer o nome em voz alta era, de certo modo, contá-la entre os vivos.

Os homens do norte aprenderam a andar mais depressa pela mata. Nunca depois do anoitecer. Ninguém ousava caçá-la.

Halvard ousou.

Encontrou-a no coração do inverno, sob um céu que não sangrava luz. Lutou até a lança partir-se, até o joelho ceder, até a neve sob os dois escurecer com o sangue dele e o da fera — indistintos um do outro. Não houve testemunhas. Apenas o frio, que tudo guarda e nada conta.

Quando o amanhecer chegou, arrastou a carcaça por neves que lhe batiam ao peito e deixou-a diante dos portões — sem dizer palavra. O pelo brilhava mesmo morto, prateado como uma coisa que não pertencia a este mundo. Alguns juraram que, sob certa luz, parecia guardar estrelas.

Ele veste a pele apenas quando os mortos são lembrados, ou quando o vento traz de volta o canto dela. Não por orgulho. Por memória. Por aviso.

A pele tornou-se o seu manto. A sua história. Um fardo e uma coroa.

E em todas as casas de Eisengrave guardava-se o mesmo pensamento, dito por ninguém: que uma coisa morta uma vez não fica, necessariamente, morta. Que o norte aprendera a contar os seus mortos com cuidado — e a desconfiar de qualquer conta que fechasse cedo demais.


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