StarborneEclipse of the New Gods · Vol. I
ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
STARBORNE — Volume Um: Eclipse dos Novos Deuses

Capítulo Três — O Dia da Força

«Eisengrave»

O frio tinha dentes naquela manhã.

O vento atravessava Eisengrave como quem volta para procurar algo que esqueceu, e a neve estalava sob cada passo como osso que se rende. As fogueiras da praça já ardiam antes que o sol tocasse a crista da montanha. Em torno delas, homens e mulheres afiavam machados, trançavam o cabelo, passavam cinza e gordura na pele até que os rostos deixassem de ser rostos. Não era festa. Festa era costume de terras onde o calor sobrava.

Halvard deixou a sua morada antes da luz. Movia-se sem som e sem vapor no fôlego, como se a geada se recusasse a contá-lo entre as coisas vivas que ainda valia a pena morder.

O Dia da Força vinha uma vez por estação. Não por glória. Por necessidade. Os fracos seriam postos à prova. Os jovens sangrariam. E a aldeia lembraria, mais uma vez, que sobreviver nada tinha a ver com misericórdia.

Ele caminhou até a borda do círculo. Ninguém disse o seu nome. Não era preciso. Tirou o casaco e dobrou-o sobre o braço. A pele prateada ficou guardada por dentro, onde ninguém a visse. Hoje não era dia de lembrar. Era dia de dar aos outros o que lembrar.


Chamavam-no Skarn.

Tinha dezessete invernos e já carregava o peso de dois dedos quebrados, um dente a menos e mais orgulho do que juízo. O pai morrera na estação anterior — não em combate, mas congelado na passagem, depois de cair embriagado da montaria. Não era o tipo de morte que rendia respeito a um filho. Por isso Skarn treinava mais. Falava mais alto. Observava Halvard como um homem que estuda um deus, à procura da falha por onde um deus pudesse, enfim, ser alcançado.

Hoje seria a sua primeira vez no círculo. A multidão não aplaudiu. Eisengrave não aplaudia. Apenas observava.

As regras eram duas, e cabiam num fôlego. Não matar. Não ceder. Lutava-se até que os anciãos dissessem que bastava, ou até que o oponente não conseguisse mais se levantar.

Halvard entrou sem arma, as mãos envoltas em corda preta. Skarn entrou do lado oposto empunhando um machado de cabo curto que ele mesmo talhara. A madeira era verde. A lâmina, leve demais. Não duraria três golpes, e Halvard soube disso antes que o rapaz desse o primeiro passo.

— Vai lutar comigo desarmado, velho? — perguntou Skarn.

A voz falhou. Não de medo. De juventude.

Halvard nada disse.

A anciã ergueu a mão, e o vento, por hábito ou por respeito, cessou. Então ela a baixou.

O machado veio primeiro — um golpe baixo, mirando as costelas. Halvard avançou em vez de recuar e enterrou o joelho na coxa de Skarn com força suficiente para dobrá-lo. O rapaz grunhiu, girou, atacou de novo, agora mais alto, mirando o pescoço. A mão envolta em corda fechou-se sobre o pulso no meio do gesto, torceu, e o machado caiu na neve sem um som que valesse a pena ouvir.

Ninguém falou.

Skarn não recuou. Avançou desarmado, os punhos selvagens, os ombros baixos como um lobo que tenta passar por baixo de outro maior. Acertou Halvard uma única vez — apenas uma — no maxilar. Não foi um golpe fraco. Halvard o recebeu e o absorveu como a pedra absorve o tempo, sem pressa de devolvê-lo.

Então se moveu. Dois golpes. Um nas costelas. Um na garganta — não o bastante para matar, mas o bastante para derrubar um homem feito. Skarn caiu de joelhos, ofegante, a boca tingida do próprio sangue.

A anciã não ergueu a mão. Ainda não.

O rapaz limpou o queixo. Encarou Halvard através da névoa do frio e da dor.

— De novo — arfou.

Halvard o olhou pela primeira vez. Um momento passou. Depois outro. Então assentiu.

Skarn avançou. Dessa vez não acertou nenhum golpe. Quando terminou, jazia retorcido na neve, os braços frouxos, o nariz despedaçado, a respiração curta mas firme.

Halvard permaneceu de pé, imóvel. A anciã ergueu a mão.

Estava feito.


Quando o sangue esfriou e o silêncio voltou, o círculo começou a se desfazer. Ninguém aplaudiu. Ninguém comemorou. As pessoas apenas voltaram às suas vidas, como se voltassem de buscar água.

Halvard ficou só por um instante, respirando o frio. Então Hakon se aproximou.

O ancião andava apoiado num cajado de que não precisava, por respeito aos homens que precisavam do seu. Parou ao lado de Halvard, os olhos varrendo a neve vermelha.

— Você luta bem — disse Hakon. A voz baixa, mas firme. — A sua força honra o seu sangue. Mas você sabe que o povo precisa de mais do que um lutador.

Halvard nada respondeu.

— Precisa de um homem que escute antes de agir. Que saiba ficar imóvel tanto quanto sabe ser forte. — Um longo fôlego passou entre os dois. — Que se lembre dos nomes dos mortos.

Halvard assentiu.

— Eu me lembro — disse.

Hakon pousou a mão em seu ombro. Apenas uma vez. Depois virou-se e foi embora, o cajado marcando a neve atrás de si como quem conta os passos que ainda lhe restam.


Naquela noite, as fogueiras ardiam no grande salão de Eisengrave.

A madeira estalava. O hidromel corria. As cicatrizes brilhavam como medalhas sob as peles e o couro. O salão fora erguido antes do nascimento de Halvard, e talvez antes que o nome do Uivo Branco fosse sequer pronunciado. As paredes vestiam-se de estandartes tecidos à mão, cada fio uma história, cada cor uma morte ou uma vitória. As vigas gemiam ao vento, mas resistiam, como tudo o que sobrevivia ali resistia: sem alarde, e por teimosia.

Não era um lugar de celebração. Não exatamente. Era onde a memória se reunia. Onde as decisões eram tomadas. Onde o silêncio dizia mais do que as palavras.

Halvard entrou pela porta lateral, como sempre. Não vestia a pele. Não naquela noite. Aquela noite não era para lembrar; era para escutar. Sentou-se à direita do pai, como mandava o costume.

O fogo no centro do salão ardia baixo — não por calor, mas por hábito. Ao redor dele estavam os sangues mais antigos de Eisengrave. Guerreiros. Curandeiros. Guardiões da memória do clã.

Jorund, filho de Mael, presidia. O cabelo já cinza, as mãos já sem força para a lâmina, mas a voz ainda cheia de peso. Falava pouco, e talvez por isso ainda o seguissem. Do outro lado do círculo estava Hakon, o cajado atravessado sobre os joelhos, os olhos semiabertos; treinara cada homem ali, e enterrara muitos deles. À esquerda do chefe, a velha Vetra, vidente do fogo, o rosto como casca de árvore, o sopro como vento entre galhos secos.

O silêncio não esperava ser quebrado. Estava sendo ouvido.

Então Jorund falou.

— As fogueiras ainda nos aquecem as costas. As paredes ainda nos seguram. E o vento ainda não levou os nossos nomes.

As palavras não eram consolo. Eram apenas a forma como o norte abria as conversas difíceis. Ele continuou.

— Três grupos de caça voltaram leves. Um voltou cedo. Disseram que o rio congelou de um jeito errado. Fendas longas e retas. Uma cortando a outra em ângulo, limpas como se alguém tivesse riscado o gelo com um esquadro.

Ninguém respondeu. Vetra fechou os olhos, e não os abriu de novo por um longo tempo.

— Dois cães pararam na passagem sul. Um deitou e se urinou. O outro arrebentou a correia e sumiu nos pinheiros. Nunca mais foi visto.

Algumas cabeças se voltaram.

— Um rapaz de Brakktun passou por aqui antes de a neve fechar. Disse ter encontrado a aldeia a oeste da Serra do Dente com as fogueiras ainda acesas. As portas abertas. Nenhum rastro. Nenhuma voz.

Deixou as palavras assentarem como geada na pedra.

— Isto não é inverno. Não são lobos. Não são ursos. É outra coisa.

Hakon mudou o peso do corpo. A ponta do cajado tocou o chão uma vez.

— Brakktun me soa errado — disse. — Sem sangue. Sem rastros. Sem som. Já vi lobos tomarem uma aldeia. Já vi a peste passar por uma. Isto não é nenhuma das duas. Lobos deixam ossos. A peste deixa os mortos onde caem. Esta coisa não deixa nem os mortos.

O salão ficou imóvel.

— Podem ter partido — murmurou alguém.

— Não — disse Jorund. Não ergueu a voz. Não precisava. — As pessoas não entram na neve e deixam o fogo de casa aceso.

Um longo silêncio se seguiu. Hakon pigarreou.

— Seria prudente vermos com os próprios olhos antes que a passagem feche com o inverno. — Não olhou para Jorund. Não era preciso. — Não os novatos. Nem os lentos.

Ninguém discordou. Mas ninguém se ofereceu.

Então Jorund voltou-se para o filho. Halvard sustentou o olhar do pai.

— Eu irei — disse.

Jorund assentiu e devolveu os olhos ao fogo.

— Reúna os nossos melhores. Partimos com a luz. Rápidos, e poucos.

Foi tudo. O conselho começou a se mover, em silêncio, sem cerimônia. Mais além, entre os aldeões, o silêncio se quebrou: os sussurros viraram ação. O medo estava nos rostos, mas não a fraqueza. Homens se ergueram. Mulheres apertaram os mantos. Ferramentas foram pousadas. Lâminas, erguidas.

Jorund levantou a mão e deu um passo à frente.

— Povo de Eisengrave. — A voz áspera, mas firme. — Talvez enfrentemos uma ameaça grave. Mas não somos frágeis. Não estamos quebrados. Somos feitos de frio, de pedra e de sangue, e protegemos o que é nosso.

Olhou para Halvard. Depois para os outros.

— Preparem as suas casas. Afiem as suas lâminas. Confiem nas mãos que cavalgarão amanhã.

O salão não explodiu em vozes. Mas se moveu. Rápido. Atento. Decidido.


O frio da manhã seguinte estava mais pesado que o de costume — daquele tipo que se prende ao fôlego e torna todo som quebradiço. Ainda estava escuro.

Os cascos moviam-se sobre o solo congelado. O couro das selas rangia. Ninguém falava. Halvard apertou a última fivela do equipamento. O machado pendia-lhe às costas, o peso familiar, quase um conforto. Ao lado dele, Skarn, o nariz ainda roxo do círculo de sangue, os olhos fixos à frente. Silencioso, pela primeira vez desde que Halvard o conhecia.

Outros três montaram sem precisar de ordem — homens que ele conhecia e, mais do que isso, em quem confiava. Contou-os no escuro, por velho hábito, como contava tudo o que pretendia trazer de volta. Cinco. Contaria de novo na volta, e a conta teria de fechar.

Jorund permanecia à beira da praça, o manto cerrado, observando. Sem discursos. Sem despedidas. Apenas um aceno.

Halvard retribuiu.

E então partiram. Para dentro da geada. Em direção a Brakktun. Em direção ao silêncio que os esperava — e que, ao contrário deles, não tinha pressa nenhuma.


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