StarborneEclipse of the New Gods · Vol. I
ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
STARBORNE — Volume Um: O Eclipse dos Novos Deuses

Capítulo Oito — Brasas Que Respiram

«Além do Dente»

Viram a aldeia quando a neve permitiu.

Pedra e palha. Telhados curvados como ombros numa tigela de branco. Sem tochas. Sem lanternas. Apenas o luar e o sopro laranja e lento das chaminés, todas acesas, todas alimentando um fogo que nenhuma mão tocava havia muito tempo.

Halvard ergueu o punho junto à pedra de limite.

Quatro formas congelaram atrás dele e escutaram. Sem cães. Sem postigos cerrados. O vento mexeu a palha, depois mudou de ideia e a deixou quieta.

Contou-os sem virar a cabeça. Skarn, o nariz ainda roxo do círculo. Olek, que enterrara mais homens do que tinha nomes para eles. Mais dois em quem confiava o frio. Cinco, contando consigo. A soma que trouxera para fora. A soma que teria de fechar no caminho de volta.

Desceu até a aldeia.


As pegadas apareciam e sumiam no mesmo fôlego. Três passos cravados na neve, depois nada — como se a palma de um gigante as houvesse apagado antes de terminarem de existir. Luz quente debruçada nas janelas. Não aquecia coisa alguma.

Uma porta sem tranca. Um banco afastado da mesa, como se um homem tivesse se erguido para receber alguém. Uma tigela de caldo já frio sob uma pele cinza. As brasas no fogão ao lado dela, bem postas, vermelhas como groselhas, respirando devagar.

Quem partiu fora instruído a manter os fogos vivos.

Os fogos obedeceram.

"Parados," disse Halvard, baixo como neve caindo.

Ficaram parados.


Na praça, junto a uma fogueira de ossos murchada num tique e num brilho, um pequeno corpo jazia no chão congelado.

Braços e pernas abertos aos quatro cantos. Amarrado, em cada canto, a um círculo riscado na terra.

O anel ainda guardava o escuro onde o sangue ensinara à terra o seu valor. Por dentro, linhas retas demais para qualquer mão. Ângulos que não fechavam. Cruzes que se recusavam a morrer. A geada copiara a conta inteira de novo, num fio de pelo pálido, paciente como um escrivão.

Cinco invernos. Não mais. Pele cor de papel. Cordas de tripa, finas e duras, atavam os quatro pontos onde as linhas tocavam o anel, e em cada um alguns grãos de sal prendiam o luar e brilhavam como pequenas estrelas obedientes.

Olek deixou o fôlego estalar. Um dos outros engoliu um som.

Halvard não levantou a blusa.

Conhecia a ausência quando a contava. Contou-a agora, com os olhos, do jeito que um dia contara seus cinco cavaleiros no escuro — e descobriu, ali, que a soma fora resolvida por outra pessoa, e equilibrada, e fechada.

Tirou as tenazes do cinto. Pinçou uma brasa viva da borda da fogueira de ossos e a pôs na lata de tampa, com cuidado, como quem carrega um carvão para acordar um fogo mais tarde. Devia morrer do escuro. Não morreu. Seguiu respirando ali dentro, pequena e firme, como uma coisa que tinha aprendido a isso.

Cortou um pedaço curto da tripa e o pressionou contra uma casca fina — um decalque do ângulo que não fechava. Ergueu, na ponta da faca, um grão de crosta vermelha onde o sal secara errado. Cada coisa num bolso.

A lata junto ao coração.

"O que fez isto," disse Olek. Não era pergunta. Não tinha como terminá-la.

"Não viemos dar-lhe nome," disse Halvard. "Viemos carregá-lo."

Leu o que a praça lhe dizia, enquanto ainda conseguia ler. Sulcos de trenó, estreitos como berços, arrastados rumo às árvores — duas dúzias, talvez mais. Buracos de estaca pela viela, regulares como regras traçadas num livro-razão. Mediu a passada entre dois deles. Doze. Mediu de novo, porque o norte aprendera a desconfiar de soma que fecha fácil demais. Doze.

"Testemunhem," disse. "Depois, sul. Contem do jeito que aconteceu, a homens que não vão acreditar. Esse é o trabalho."

Pousou a mão na pedra de limite ao sair. Ela guardou o frio e o tomou por atenção.


As vielas cederam a bétulas e moita rala, e depois a árvores que faziam o próprio vento. A trilha de sulcos cruzava e descruzava a si mesma. A regra se mantinha sob tudo: uma estaca a cada doze.

Num oratório de beira de trilha, o sino fora silenciado — a língua amarrada com cabelo e sal, do jeito que se amarra uma coisa que não se quer ouvir. Um dos outros tocou a corda. Ela se moveu e não fez som algum.

Então as árvores se abriram sobre uma clareira certa em cada medida e errada em todas as outras.

Três tripés de galhada, à mesma distância, pernas congeladas em buracos rudes. Fios finos esticados entre eles seguravam a lua — tripa, ou algo com desejo de ser tripa. No centro, sobre um suporte baixo de ferro, uma bandeja rasa. A lua fazia o interior brilhar num escuro que dava luz. Onde o ferro fora lambido, cristais haviam crescido. Vermelhos. Facetados. Arrumados.

Ao lado do suporte, uma fileira de frascos.

Algo se movia neles. Lento. Deliberado. Um pulso verde subia pelo vidro como um pensamento descobrindo uma veia. Formas viravam-se na escuridão, meio feitas, meio lembradas — e sob elas, pequenos corações guardavam um ritmo que não era o do sangue.

Na borda da clareira, uma canoa longa borrava o escuro, amarrada com linhas que desapareciam sob o gelo.

Halvard pôs os homens na neve com dois dedos e esperou por vozes.


Vieram de dois em dois. Medidos. Sem pressa.

Máscaras negras, envernizadas, do sobrolho ao lábio. Véus de sal abaixo da boca. Antebraços riscados de cicatrizes velhas e novas, enfileiradas como uma conta. As mãos falavam, e as bocas não. Um zumbido vivia em uma das gargantas e não ia a lugar nenhum.

Uma mulher — leu pelos quadris, pelos ombros — chegou à bandeja e raspou os cristais vermelhos com um osso chato. O som devia ser nada. Chegou a ele como sensação: areia nos dentes, um anel sob as unhas. Despejou o pó num frasco e tampou com cuidado, e passou a outro, que limpou a borda e o pôs numa caixa forrada.

Dois deles ergueram um pequeno embrulho até a pedra central.

Halvard olhou a sombra do ato, não o ato. A bandeja escureceu, depois brilhou do jeito errado — não com calor. Com consentimento.

No tripé oposto, uma figura descobriu um braço e penteou com o dedo uma cicatriz antiga. Apertou o pulso contra uma marca reta cortada no gelo. Segurou. Abaixou a outra mão, e nela um instrumento que ele não conseguiu fazer os olhos segurarem.

Doze vezes.

A bandeja encheu-se de vermelho. Um grunhido abafado enroscou-se para fora do embrulho e cessou.

A mão de Olek fechou-se em seu ombro. Uma vez. Nada. De novo, mais firme. Halvard rolou meia-volta lenta e viu o que devia ver — uma sentinela, dez passos à direita, a máscara já voltada para eles. Imóvel. Sem fôlego que ele achasse em parte alguma dela.

O ferro da lança pegou um fio de luz. A ponta ergueu-se, um fio. A cabeça mascarada girou, devagar, e o lugar onde deviam estar os olhos pousou neles — e parou.

O zumbido afrouxou aos poucos. A mulher na bandeja tampou o último frasco e limpou a borda. As mãos dela abriram. Fecharam. Um gesto pequeno, e a coluna se desfez no escuro, de dois em dois, do jeito que viera.

Quando se foram, a clareira ficou. Tripés firmes. Fios tensos. A bandeja segurando a lua. A canoa ainda sob o gelo.

Halvard esperou até o som sangrar do frio. Depois, mais que isso. Sinalizou com dois dedos e recuaram do jeito que se deixa um cão dormir — barriga, joelhos, pés — e não se ergueram até a mata engrossar, e não falaram até a primeira bétula lhes virar as costas.

Tocou a lata no peito e sentiu a brasa respirar.

Contou os homens no escuro. Cinco.

A soma ainda fechava.


Viraram-se para casa.

Atrás deles, na aldeia sob a neve, cada casa recolheu a própria luz de uma só vez.

Não era o vento. O laranja em cada janela aprofundou-se, depois afinou, do jeito que um peito enche e esvazia — cada chaminé, cada brasa bem posta, cada paciente foguinho respirando para dentro ao mesmo tempo, numa só contagem, como se a algo muito grande houvessem enfim dito que podia.

A neve sobre a praça mexeu-se. Assentou. Uma linha de geada rastejou para fora do anel riscado e correu reta, e mais reta, terminando um ângulo que se recusara, a noite toda, a fechar.

Por baixo dela, sem pressa, algo terminou a sua conta.


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