StarborneEclipse of the New Gods · Vol. I
ENPT
Working draft for review · Vol. I of XII
STARBORNE — Volume Um: Eclipse dos Novos Deuses

Capítulo Nove — A Estrada do Entre

A fenda se fechou atrás deles como uma boca que decide não falar.

Sem som. Gideon a sentiu nos dentes — uma pressão, e depois sua partida. Virou-se. Onde estivera a porta havia cinza, e onde deveria haver uma aldeia em chamas atrás do cinza, havia mais cinza, seguindo além de onde seus olhos concordavam em acompanhar.

Ficou parado e deixou o coração encontrar um ritmo que pudesse manter.

Tinham atravessado. Estava vivo. Lyra respirava contra seu peito, rápida e rasa, como respiram os recém-chegados — como se ainda não tivessem certeza de que o fôlego era seu para guardar. O cão estava sentado a três passos, o rosto cego voltado para a estrada à frente.

A estrada. Obrigou-se a chamá-la assim.

Não era uma estrada. Era a ideia que uma estrada deixa para trás: uma palidez no cinza onde o chão concordara em ser pisado. Ia para a frente e ia para trás, e as duas direções pareciam iguais, o que era o mesmo que dizer que não pareciam nada. Como o interior de um fôlego preso.

O alívio subiu nele, morno e estúpido, e ele o deixou subir por um instante. Depois azedou.

Não havia sol para contar a hora. Nenhuma sombra. A luz vinha de toda parte e não significava nada. Não saberia dizer se tinham ficado ali um minuto ou a maior parte de um dia. O corpo não dava opinião. Isso o assustava mais do que os casacos haviam assustado.

— Tudo bem — disse, ao cão, à criança, ao cinza. — Tudo bem.

O cão se ergueu e caminhou. Não olhou para trás para ver se ele o seguiria. Tinha o andar de algo que desgastara aquele caminho até deixá-lo liso muito tempo atrás, sem pressa e com certeza, um velho criado indo atender uma porta que já atendera dez mil vezes.

Gideon o seguiu. Não havia decisão naquilo. A decisão acontecera em algum lugar atrás dele — numa forja, numa colina, numa cama onde uma mulher deixara de respirar. Ele apenas a carregava agora, do mesmo modo que carregava o martelo e a criança e o pequeno peso frio do amuleto contra o esterno.


Lyra ficou com fome.

Ele sentiu antes que ela fizesse o som: um enrijecer, um volver da cabecinha contra ele, a busca cega. Depois o choro, fino no ar fino, saindo e não voltando como um choro deveria — engolido antes de achar uma parede da qual retornar.

Parou. Odiava parar. O cão parou também, dez passos adiante, e esperou.

Tinha o odre de leite de cabra de Mara dentro do casaco, mantido morno contra o corpo como se guarda uma coisa que não se pode repor. Trabalhou a rolha com o polegar. Já o fizera duas vezes na estrada, e as mãos haviam aprendido o jeito daquilo — o trapo passado por dentro, o aperto lento, o ângulo que não a afogava.

Ela mamou. Ele segurou o odre contra o cinza e obrigou-se a não olhar o nível dentro dele, e não olhou para mais nada.

Quanto leite. Quantas mamadas num odre. Quanto de estrada valia uma mamada, aqui, onde a estrada não guardava o tempo. As contas não fechavam. Ele contou mesmo assim, porque contar era a última parede que lhe restava para apoiar as costas. Três goles. Seis. Nove. A mão livre dela abria e fechava no ar, e nela, ainda, o único fio branco que o cão lhe dera — ou que ela tomara; já não tinha certeza de qual.

Ela dormiu. Ele tampou o odre. Não se permitira olhar. Olhou agora. Um terço a menos. Talvez menos. Disse a si mesmo que menos.

O cão já estava caminhando.


A terra começou a se repetir.

Uma pedra inclinada, pálida como osso, encimada por musgo cinza. Ele a passou, e caminhou, e a passou de novo — a mesma inclinação, o mesmo musgo, a mesma lasca no ombro onde alguma mão ou casco há muito ido a golpeara. Disse a si mesmo que havia duas pedras. Disse a si mesmo que o mundo estava cheio de pedras inclinadas.

Passou por ela uma terceira vez e parou de dizer coisas a si mesmo.

— Já estivemos aqui — disse.

O cão seguiu como se não tivesse ouvido, o que de fato não tinha, não tendo orelhas que ele conseguisse achar. Mas sabia. Cruzou o mesmo chão duas e três vezes sem diminuir o passo, e Gideon compreendeu, de um modo frio e lento, que a repetição não era um erro da estrada. Era a natureza da estrada. A distância ali era coisa que mentia. O perto continuava perto. O longe se recusava a chegar. E às vezes o mesmo perto voltava a aparecer, como uma palavra dita num cômodo de paredes demais.

Começou a marcar a pedra ao passar — um arranhão com a unha do polegar, baixo, onde o musgo rareava.

Na quarta vez, o arranhão estava lá.

Na quinta, não estava.

Parou de marcar a pedra.


Havia outros na estrada.

Ele não os via tanto quanto deixava de ver o cinza onde estavam. No limite de onde seus olhos cediam, formas se mantinham imóveis: a sugestão de um ombro, o lugar onde estaria um rosto. Não se aproximavam. Não iam embora. Tinham a paciência de quem espera que um nome seja chamado, num cômodo onde já esperaram tanto que a espera virou o todo deles.

Os mortos, pensou, e não sabia como sabia, e sabia assim mesmo.

Um estava perto da estrada quando passaram — perto o bastante para ele o alcançar em três passos. Uma mulher, ou o cinza lembrando uma mulher: a curvatura, as mãos postas à cintura como em torno de um embrulho que já não estava ali. Ela não virou a cabeça. Mas quando chegaram à altura dela, algo nela se inclinou. Não o corpo, que não se moveu. O peso da atenção dela. Inclinou-se em direção à criança contra o peito dele.

O cão se pôs no meio, sem pressa, e a inclinação cessou.

Seguiram em frente. Gideon não olhou para trás. Enterrara uma esposa três dias atrás, ou uma hora atrás, ou num país que já não tocava este, e aprendera o que custava olhar para trás. Mas sabia agora, com a parte de si que parara de fingir, onde estava. Não em lugar nenhum. Não em segurança. Um lugar que era usado. Uma estrada por onde se conduziam almas — e algumas delas, a mulher curvada, as formas no limite, tinham sido conduzidas por ela e simplesmente nunca chegado ao fim.

Apertou Lyra mais contra si. O amuleto contra o peito estava frio como é fria a água funda, até embaixo de tudo.


A luz, se era luz, afinou.

Lyra acordou e não chorou. Ficara quieta de um jeito que ele gostava menos do que do choro — a quietude parada e larga dos muito novos quando o mundo é grande demais para se discutir com ele. Os olhos estavam abertos. A prata neles colhia o cinza e o devolvia mais claro do que viera, duas pequenas moedas de luz fria, e as formas no limite da estrada se voltaram para aquela luz como homens com frio se voltam para uma janela.

Ele puxou o pano vermelho sobre os olhos dela. As formas perderam o interesse, devagar, como perde o interesse uma coisa que tem todo o tempo que existe.

— Logo — disse a ela, sem ideia do que queria dizer. — Logo.

O cão tinha parado.

Estava no meio do chão pálido com a cabeça baixa e o rosto cego fixo num trecho de cinza igual a todo o resto do cinza. O lábio não estava arreganhado — não tinha rosnado algum que ele pudesse ouvir —, mas o todo dele se contraíra numa linha, tensa como o instante antes de o martelo cair, apontada para o ar adiante.

O ar adiante estava se abrindo.

Abriu-se de um modo que a primeira fenda não tivera — nenhuma linha limpa e traçada, mas uma costura puxando-se larga, cinza descascando de cinza, uma porta onde um fôlego antes havia só mais estrada. Frio veio por ela, e sobre o frio um cheiro que ele conhecia: livros velhos e ferro, e por baixo algo polido e paciente, uma coisa que não trazia lama nas botas.

Do outro lado da nova fenda, uma figura já esperava.

Casaco cinza. Luvas pretas. Mãos postas, sem pressa, como põe as mãos um homem que tem todo o tempo que existe e o sabe.

Não os seguira. Não precisara. Apenas soubera a que porta eles chegariam, e fora na frente, e esperara — do jeito que os auditores sempre esperavam, do jeito que o cão esperara a cada parada, do jeito que os mortos esperavam à beira da estrada por um nome que ninguém jamais ia chamar.

O casaco cinza ergueu as mãos postas.

E, devagar, começou a contar.


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